SOCORRO, UMA MURIQUI PERDIDA

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Uma cidadezinha que conheço bem: Simonésia nas Minas Gerais. Estive por aqui em 2007 pela RECORD em busca de meu primeiro avistamento de um muriqui.

Muriqui ou Mono-Carvoeiro é o maior primata das Américas, endêmico de Floresta Atlântica, no século do descobrimento do Brasil estima-se que contava com cerca de 400 mil indivíduos. Hoje, reduzidos a menos de 2 mil indivíduos, estão limitados a fragmentos de floresta nos estados do Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo.

Na época, por quase uma semana tentamos encontrar um grupo com indivíduos marcados com GPS em um terreno tão íngrime e difícil coberto de vegetação que mesmo quando chegávamos ao topo de um morro, a descida parecia subida.

Tivemos nesta viagem diversos encontros surpreendentes como uma lagarta de borboleta que mimetizava perfeitamente uma jararaca e uma jararaquinha filhote usando sua cauda como um verme para enganar anfíbios gulosos.

Mas quanto aos muriquis nada…apenas uma imagenzinha sem vergonha.

Voltamos em 2010 pelo SBT, desta vez em Santa Maria do Jetibá em Minas Gerais para gravar um outro grupo da mesma espécie de Muriquis do Norte. Três dias de chuvas dificultaram muito nosso trabalho. Novamente os macacos se movimentavam muito e a chuva não permitia boas imagens pois as lentes, viradas sempre para cima, viviam com respingos. De qualquer forma, saímos com a missão cumprida com o que ra possível mostrar diante das circunstâncias.

Finalmente estamos em 2016, compondo uma série de programas sobre a América do Sul onde o bicho principal de um dos programas no bioma de Mata Atlântica é justamente o nosso Muriqui.

Voltamos às duas cidades anteriores, Santa Maria e Simonésia. Em Santa Maria, dois dias de chuvas e um dia seco depois, conseguimos gravar e fotografar um grupo de Muriquis em suas atividades preguiçosas diárias. Em Simonésia, uma história diferente. Uma Muriqui vive isolada em um fragmento de mata cercada pelo café e eucaliptos, sozinha, desgarrada de qualquer grupo.

Na sociedade dos Muriquis, uma sociedade pacífica, onde não há disputas pelo poder, alimento e sexo, cabe às fêmeas nascidas dentro do grupo saírem do mesmo para buscarem novas alternativas, novos grupos para se estabelecerem. Isto é fundamental para a conservação da espécie já que possibilita a troca e variabilidade genética.

Mas esta jovem macaca, seguindo seus instintos, não contava que seus caminhos a levassem a um fragmento de mata isolado, onde vive pelos últimos anos.

Neste fragmento não só não encontrou uma nova família mas também não encontrou uma diversidade alimentar que pudesse sustentar a biomassa de um animal que pode chegar a doze quilos.

Desta forma, começou a frequentar as propriedades rurais que cercam o fragmento de mata para roubar bananas e outras frutas, até mesmo café. Uma situação triste. Tivemos a oportunidade de gravar a fêmea que todos os dias em uma rotina diária desce até a propriedade de seu Lourenço, família a qual está habituada, para buscar seu suplemento alimentar essencial. Nome apropriado deram a essa moça: Socorro.

Ficamos nessa casa durante 5 dias de uma mesma semana junto com biólogos ligados a ao Plano Nacional das duas espécies de muriquis (do norte e do sul), em vigília, para poder ter a oportunidade de gravar essa  e poder relatar a rotina desta família de pequenos proprietários rurais e de sua visitante ilustre. Socorro, que não é boba nem nada, percebeu uma rotina modificada na casa e de novos jogadores e simplesmente nos deu o bolo…não se aproximou em nenhum destes dias. Nos observava de longe e ia embora. Começamos a ficar preocupados pois sabemos que a dependência dela pelas bananas não se tratava de luxo. Resolvemos partir. Antes porém, resolvemos checar com os vizinhos se tinham visto Socorro. Encontramos a gaiata alimentando-se em um gigantesco cacho de bananas no primeiro vizinho. Sem os equipamentos…nada de imagens.

Deixamos Simonésia para voltar depois de um mês. Socorro voltou a estabelecer a mesma rotina na propriedade de seu Lourenço. Desta vez, com um plano bem definido, nos escondemos dentro da casa e finalmente Socorro deu as caras e tivemos pela primeira vez um muriqui com um quadro limpo no viewfinder que nos olhava curiosa por detrás de sua máscara negra.

Uma oportunidade advinda de uma infelicidade. Bati a foto enquanto Boni e Daniel faziam imagens e Adriano gravava sua voz. Baixei a câmera por um instante e olhei aquela linda macaca sentada no alto de uma palmeira vocalizando e comendo bananas. Tive uma impressão triste. Pareceu-me um animal que sobrevive de migalhas. Um animal nobre, símbolo da mais rica Floresta Brasileira que desaparece todos os dias um pouco mais. Um ser vivo que está vivendo de esmolas, da caridade alheia. Senti um aperto no coração.

MURIQUI
MURIQUI
Richard com Muriqui em Socorro
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