Um Dia Triste

pumaEstamos navegando no médio rio Negro.  Não sei exatamente onde e para falar a verdade, a localização exata não é o que verdadeiramente importa. Estamos buscando, através do conhecimento de um guia experiente do local, oportunidades para gravação de nosso programa.

O guia e um membro de nossa equipe partiram de nosso barco regional numa voadeira mais rápida, para chegar a comunidades ribeirinhas em busca de temas para nosso trabalho.

Depois de cerca de três horas, ele voltaram e percebi pela cara de nosso companheiro, que algo estava errado. Quando chegaram, me contaram o que tinham visto na comunidade: uma família que mantinha alguns papagaios e uma suçuarana morta por tiro de caçador. Sim, uma suçuarana morta!

Sussuaranas ou Suçuaranas (Puma concolor) são onças pardas, também chamadas de pumas ou cougars pelos norte americanos. Ocorrem em toda as américas e são o segundo maior felino deste gigantesco continente, que rasga nosso planeta de norte a sul.

Porém, apesar desta grande área de ocorrência, as onças pardas estão desaparecendo. Pra falar a verdade, é mais fácil avistar uma onça pintada do que uma onça parda no nosso país.

Felinos que chegam facilmente a 60kg de peso, as onças pardas são esguias e tímidas, vivem em florestas da Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado, Pantanal e até na Caatinga, ou seja, ocorrem em todo o nosso Brasil.

Eu tive a oportunidade, enquanto gestor de um criadouro conservacionista, de receber um casal de sussuaranas vindas de um resgate de fauna decorrente da construção de uma usina hidroelétrica em Porto Primavera. Como todo casal de mamíferos, reproduziram-se com certa facilidade, gerando dois filhotes, uma fêmea que coloquei o nome de Zara e um macho que batizei de Cauê.

Cauê foi retirado do recinto de seus pais com semanas de vida para ser tratado pessoalmente pela equipe do criadouro, e viveu comigo por mais de cinco anos.

Pela minha experiência com suçuaranas, não há felino americano mais dócil quando em cativeiro, e ao mesmo tempo, não há felino mais desconfiado e arredio quando na natureza.

Voltando a nossa história, fiquei perplexo com a situação, pois nunca havia visto uma suçuarana na natureza! Perguntei ao guia se, por acaso, poderíamos gravar e fotografar o animal morto, mesmo acreditando que a resposta seria negativa. Para minha surpresa, ele disse que poderíamos gravar. Acostumado a mostrar somente coisas bonitas da natureza em nosso programa, não sabia exatamente como conduzir essa questão. Uma coisa eu sabia, não podia ficar indiferente a uma situação como essa.

Estou acostumado a conviver com a morte, tenho visto, infelizmente, durante minhas jornadas nestes últimos anos, muitas coisas tristes: deflorestamento, árvores cortadas ilegalmente descendo rios, centenas de animais atropelados, bichos apreendidos do tráfico de animais silvestres, animais mortos por caçadores. Mas eu não estava preparado para ver uma onça parda morta por um tiro no pescoço. Era um macho ainda jovem, que provavelmente nem teve  chance de efetuar sua primeira cópula.

Eu não gosto de caça, mas entendo que povos da floresta cacem animais silvestres, pois no meio da mata, afastado de qualquer serviço e infraestrutura, sem gado, galinhas ou porcos, fica difícil manter o nível de proteína animal sem recorrer a caça. Mas, uma onça parda… Triste seria qualquer animal, fosse um jacaré, capivara, paca ou tatu, porém animais já comuns na mesa amazônica, mas uma onça parda…

Onças pardas fazem parte do topo da cadeia alimentar. Uma fêmea sadia e adulta pode gerar dois filhotes a cada dois anos, enquanto herbívoros e roedores se reproduzem a taxas muito mais elevadas.

Concentrado nas informações, gravei ao chegar no local. Estava pronto para as fotos, quando vi mais uma vez o elegante animal estendido à minha frente, inerte e sem vida. Olhei para minha equipe e notei a cara insatisfeita e fechada de Cláudio, Daniel e Marcio. Foram poucas oportunidades neste trabalho em que vi minha equipe infeliz em realizar seu trabalho, sem sorrir e não me contive, chorei… Uma suçuarana, não uma suçuarana…

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